Estudo alerta: flores e frutos do Cerrado estão durando menos; veja o porquê
24/03/2026
(Foto: Reprodução) Pesquisa aponta efeitos das mudanças do clima no Cerrado
Flickr/ Frutos Atrativos do Cerrado
O período em que as flores e frutos do Cerrado brasileiro ficam disponíveis no ambiente está cada vez menor. É o que aponta uma pesquisa conduzida pelo Laboratório de Fenologia da Unesp de Rio Claro (SP), publicada na revista Functional Ecology.
📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp
O estudo analisou 31 espécies de árvores e arbustos em uma área de reserva na Fazenda São José, em Itirapina (SP). Com base em 15 anos de monitoramento (2005 a 2019), os cientistas confirmaram que as mudanças climáticas estão alterando o ciclo reprodutivo da vegetação nativa.
VIU ISSO?
Fotógrafo revela mundo invisível dos insetos com macrofotografia; FOTOS
Ave renasce em região da Caatinga onde foi extinta há mais de 100 anos
Executivo larga mercado financeiro e cria refúgio na Mata Atlântica
Impacto das chuvas e do calor
Flor do Cerrado (Canela de Ema) e Veludo-branco
Wikimedia Commons/ Marcos Cesar Campis e Flickr/ Frutos Atrativos do Cerrado
A redução no tempo de floração foi mais drástica nas espécies que dependem de polinizadores animais, fenômeno associado principalmente à diminuição das chuvas. Já a duração da frutificação caiu em todas as espécies estudadas, fator relacionado ao aumento da temperatura e à redução da umidade do ar.
Embora o início e o pico da floração não tenham mudado, o período termina mais cedo, especialmente nos meses de transição entre as estações seca e chuvosa (abril e setembro).
“Durante estes meses há menos flores, ocasionando uma maior demanda para as espécies que possuem os mesmos polinizadores. Isso leva ao aumento da competição por recursos, como néctar e pólen”, explica a bióloga Amanda Eburneo Martins, autora principal da pesquisa.
Veja o que é destaque no g1:
Veja os vídeos que estão em alta no g1
Risco para a fauna e regeneração
A redução na oferta de recursos acende um alerta para as interações ecológicas. Com menos flores e frutos disponíveis ao longo do tempo, a diversidade do bioma pode ser comprometida.
Vegetação do cerrado no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães
Wikimedia Commons/ Attilio Zolin
Além disso, a menor duração da frutificação afeta diretamente a fauna. “Com menos alimento, espécies frugívoras — que comem frutas — podem enfrentar escassez, o que aumenta o risco de queda populacional e, em situações críticas, até a morte”, completa Amanda.
A regeneração natural do Cerrado também entra em xeque, já que as sementes dependem dos frutos para se desenvolverem. Segundo o estudo, as plantas que possuem apenas um polinizador específico são as mais vulneráveis ao desaparecimento no futuro.
Resiliência e preservação
Apesar do impacto climático iminente, os dados trouxeram uma nota de esperança: a comunidade vegetal tem se mostrado resiliente. O número de espécies que conseguem florescer e produzir frutos permaneceu estável desde o início da amostragem, em 2005.
Flor do Umburuçu
Wikimedia Commons/ JB Saramago
Cerca de 70% das espécies da área dependem de animais para reprodução, sendo as abelhas os polinizadores mais importantes, seguidas por besouros, aves, morcegos e mariposas.
A pesquisadora reforça que, embora o estudo tenha focado em Itirapina, o alerta vale para todo o bioma. “O Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo. Políticas públicas devem priorizar sua proteção para que não ocorra mais a conversão em áreas de monocultura e pastagem”, finaliza.
Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
VÍDEOS: Destaques Terra da Gente
Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente